quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A propósito de conceitos


A história decorre de uma reunião de trabalho entre o responsável pelo departamento produtivo, de uma grande empresa americana, e um colaborador que apresentou, por escrito, uma reclamação por indevida, na opinião deste, conceção de um produto a ser definido.
Após uma inicial troca de informações, o dito responsável resolve apresentar um argumento que, desde logo, baliza a reunião e a pretensão do colaborador. Informa então que reconhece, no colaborador, uma dificuldade em ouvir a opinião de outros e que só ouve as suas posições. Em processo de negociação “ancorou” a discussão. A partir desse momento e sempre que o colaborador apresentava o seu ponto de vista ou interferia, com resposta, aos argumentos do responsável  logo era observado, por este, que a sua opinião inicial sobre a personalidade do colaborador estava correta. Ou seja, lá estaria o colaborador a ouvir-se só a ele!
E assim se prolongou, por mais algum tempo a reunião, e sempre que a posição do responsável era posta em causa era sempre indicada a “âncora” inicial. O colaborador, que desde logo estaria, numa conversa da natureza em causa, numa posição de desvantagem visto a mesma ter lugar no gabinete no responsável, mais não teve do que desistir de argumentar e deu por encerrada a reunião.

Se o responsável utilizou a estratégia para demover o colaborador da pretensão inicial, tal surtiu efeito. Se foi uma atitude involuntária desde logo tornou a relação contaminada e inconsequente. Sendo, neste último caso, uma relação tóxica.

Quem, por força da diferença hierárquica em causa, limitou e condicionou o resultado da reunião foi, neste caso, o responsável.

O ensinamento é de que, em negociação de posições, o estabelecimento de âncoras que nos permitam a todo e qualquer momento voltar a essa posição, é aconselhável quando pretendemos resultados inconsequentes, eliminar qualquer pretensão da outra parte ou, simplesmente, perder tempo.

A propósito, a reclamação inicial nunca foi respondida. A empresa caracterizava-se por uma postura de “ditadura de posicionamento” relacional. Também existem deste lado do Atlântico…

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A propósito dos desejos de Natal


Este Natal voltamos a demonstrar uma das nossas características mais geneticamente entranhadas na nossa sociedade. O desejo de querer receber muito com pouco investimento.
Esta evidência é demonstrada nas formas mais impessoais de manifestações de sentimento natalício para com o próximo.
Os portugueses e as empresas portuguesas fazem-nos chegar mensagens escritas, via telemóvel, emails e até mensagens via rede social que, de pessoal e sentimental, nada têm.
Enviar uma mensagem escrita para uma quantidade de amigos, com o esforço máximo de os ir selecionando da lista telefónica do telemóvel ou enviar um email reconfortante, para uma quantidade enorme de endereços de email, com os votos desejados ou ainda, associar todos os amigos da rede social a uma determinada fotografia de Natal, nada tem de pessoal. Receber uma mensagem escrita genérica não presta. Pensar que com isto se demonstra que nos lembramos dos amigos é erradamente concreto.
Não é pessoal. Não se demonstra o mais ténue sentimento de amizade e desejo, quando se percebe que a mesma mensagem foi enviada assim, impessoal e em massa, para outros como nós.
Os amigos mais íntimos gostam de ouvir a nossa voz. Gostam de ouvir de viva voz o nosso desejo de Natal.
Os amigos gostam de receber mensagens escritas mas personalizadas. Com algo de comum entre os amigos. O trabalho, a família ou algo que tenha sido partilhado.
Receber emails empresariais em que nem o destinatário está identificado é equivalente a receber, na caixa do correio da nossa casa, os folhetos promocionais dos supermercados. O que, normalmente, lhes fazemos é colocá-los no lixo.
Nas redes sociais, colocar uma identificação de um amigo numa fotografia é impessoal e dispensável. Aliás, depois disso passamos a receber as mais variadas respostas entre todos os identificados. Não acredito que a todos os amigos, do meu amigo, interesse saber que um outro amigo, que está num país distante, apanhou um qualquer vírus e que não pode andar de avião e que por isso não pode estar no Natal com a família. Isso é impessoal ao melhor estilo dos programas de casa de segredos e grande irmão.

Aos meus amigos telefono na véspera de Natal. Aos meus amigos envio um email personalizado.

Não poderei voltar ao tempo da escrita em papel e dos postais personalizados, dos quais tenho saudades por demais, mas gosto de enviar os meus desejos pessoais aos meus amigos.

Também não me verão a responder a mensagens impessoais, a emails em massa e a identificações nas redes sociais. Lamento, aos meus Amigos darei sempre mais do que isso!

Por tudo isto é que há quem se queixe que as amizades são tão efémeras. Por causa dos envios em massa. Pelo menos no Natal, os meus amigos que me telefonem, que me escrevam ou que publiquem uma fotografia. Eu gosto de saber como estão. Gosto de lhes ouvir a voz, gosto de lhes ler a escrita e gosto de lhes ver as rugas…

Abraços de Natal…